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terça-feira, 9 de dezembro de 2014

OUTONO



Há um poema em cada leitor,

único, como essa noite de quase outono,

de folhas murmurantes. Este instante.

Um céu que não se repete,

já passou.


domingo, 28 de setembro de 2014

ODES À CIDADE

Minha cidade me habita.
Geografia material que desapareceu,
consumida pela pressa,
pelos estetas de um mundo veloz, voraz.
Cinza, muros, viadutos,
famintos de nossas lembranças,
devoram marcos, mapas de nossos afetos.

II

A cidade de Pedro se perdeu
Aonde o cinema do primeiro beijo?
As luzes da noite alegre? As gargalhadas?
O sol que nunca se põe?
Minha cidade me habita.
É quase só memória, pura emoção.

III

Minha cidade me habita,
território de cimento e alma,
corpo de nuvem e carne,
pavimentada de sonhos, ilusão.
Aonde a casa de Luiza?
a que ouvia os segredos,
a que conhecia os poemas, os autores?
Que mapa obscuro sepultou sua morada,
sob esse condomínio, esse viaduto?
Aonde a casa daquele novo amor?
Aonde a música barroca, o beijo terno?
A fuga?
De Bach?

IV

Os olhos não enxergam.
É o coração que desenha a cidade,
a ronda pelos bares da avenida.
As palmeiras que nos espiavam
ainda estão lá.

V

A memória agora é turva,
janelas embaçadas.
A praça sucumbiu. Sob a elevada, sob o ginásio,
foram sepultados os bancos, a sombra acolhedora.
Juras, medos, projetos inscritos no muro derrubado.
Aonde nos perdemos de nós?

VI

Minha cidade me habita.
Caminhávamos sob o tapete
lilás daquele jacarandá.
Havia o perfume dos passos
noturnos entre jardins.
E os jasmins do amado
naquela noite tão fria, tão noite.

V

O mapa da cidade guarda mistérios,
madrigais, gemidos.
Aonde o bar do café da manhã?
A banca de jornal? O sorriso do engraxate?
O bom dia do seu João?
Um carro passa e reflete o olhar,
de mãos dadas... Passa, é outro tempo.

VI

O cine Baltimore e seus cartazes chamativos espiam.
“Beija a garota”, dizem. “Vamos!
De olhos fechados”... Mas moça de família
não se abraça na rua.
Que pena! O suspiro foi engolido pelo shopping,
pela garagem que se ergue ali.
Ela casou-se com outros, tem filho..,
É avó.

VII

Minha cidade me habita.
Mapa que desaparece
E se recria a cada um de meus passos.
Cidade múltipla, tear dos tempos,
de meus avós, minha infância,
das paixões que se foram...
De novos amores que virão?
Túmulo de meus antepassados,
cemitério e perguntas.
Berço do meu filho,
talvez de meus netos.
Os verei?

VIII

A casa se abre,
tão diversa, tão igual,
não me pertence mais,
nem eu a ela.
A rua familiar é a mesma,
e tão outra.

O tempo é também um lugar.




terça-feira, 6 de maio de 2014

ESPELHO DA LUA CHEIA


Requer toda a intimidade
este momento
em que meu olho se dilui
me vê tua.


Penso que nesta hora não pense
e milhares de imagens
tomam minha mente.


Corpo,
gostaria de entregar-me
apenas como sonho.
O mistério da noite.


Foto: Ariela Dedigo

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

OUTROS POETAS: ANA PARANHOS - GUAPURUVU

                                                                                               
GUAPURUVU

                                                                                                                    Ana Paranhos

O céu mudou de cor. Imensas

E diáfanas plumagens tingem

O céu de verde-bandeira,

Esverdeando o mundo todo.

Galhos-asas, asas-galhos

Voam encobrindo espaços.

O céu não mais é azul

O sul não é mais o sul

E perdemos o norte.

Cachos de flores amarelo-ouro

Dançam ao vento.

Caem coroando as cabeças que passam

Dos pequenos e grandes reis.

 
(PARANHOS, Ana Lúcia Silva. Guapuruvu. In: CLAUSEN, Ana Cristina.; PARANHOS, Ana Lúcia Silva.; ALMEIDA, Eli Carneiro de.; FISCH, Vera. Quarteto em versos. Gramado: Letras em cores, 2007, p. 21). (Publicado com autorização da autora)

Foto: Maria Alice Bragança - Todos os direitos reservados
 
 
 
 

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

REENCONTRO II

Aqui estamos,
e as palavras não têm sentido.
Quem acreditaria?

Este silêncio é incômodo
como um sapato apertado.


(Maria Alice Bragança, Quarto em Quadro, Rio de Janeiro: Shogun Editora e Arte, 1986, coordenação editorial de Christina Oiticica).




                              Foto: Maria Alice Bragança
                                Todos os direitos reservados.


sábado, 8 de fevereiro de 2014

O POETA

O poeta tem sete fases. Elegias, versos livres,
poesia concreta, odes, sonetos, 
tankas,  haicais. Tudo inventa.
O poeta tem sete faces
mente que sofre, sofre e mente.
Tudo tenta.

(Maria Alice Bragança In: MARCELINO, Walmor et al. 1ª Reunião de Poetas – Sul. Curitiba: Quem de Direito, 2002).






quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

DIFUSA

Não virá aquele com quem sonhava.
Sei que mal lhe adivinho o rosto,
mas não perseguirei imagens na multidão.

Sei que não virá,
vestido de brumas e altares.
No entanto, posso encontrar-me,
mulher, somente,
caminhando difusa em uma tarde de outono.


Foto: Maria Alice Bragança
        Todos os direitos reservados.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

TENTATIVA

O que eu queria te dizer
não sei em que momento
foi roubado.
Talvez por um espelho quebrado,
talvez por uma porta batida.
Foi-se em um desses guetos
onde a vida bifurca.

O que queria dizer-te
não consegue irromper dos lábios.
Talvez tenha uma beleza trágica,
talvez rasque meu coração.
O que queria te dizer
o gato comeu.





(Maria Alice Bragança, O quarto em quadro, 1986)





                                         Foto: Maria Alice Bragança
                                         Todos os direitos reservados.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

TEIA

Onde está o meu amor?
Sonha comigo, contempla o seu umbigo?
Em que cidade, em que pensamento,
Se perdeu neste momento?
Teço fios para laçá-lo
antes que o lirismo me sufoque.
Penetro o sonho do meu amor,
pensando nele


(... e lixando as unhas...).

domingo, 26 de janeiro de 2014

SÓTÃO

Poderia assobiar sempre que passasses.
Não sei, não aprendi a assobiar.
Estão cerzidos, na barra da minha saia,
os temores de minhas bisavós.

Queria sussurrar-te muitas noites de amor.
Não posso. Vela minha voz
o silêncio da espera
na sacada noturna de meus príncipes.

Guarda esse baú, vazio, de enxoval,
a menina que carrega em seus passos
o andor eterno de todas as mulheres.

(Maria Alice Bragança)

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

INSÔNIA

Vontade de escrever nos muros.
Medo que a vida venha dos livros.
Pode não me convencer.
Mundo fora?
Mundo cá dentro.
Como posso estar só?

(Maria Alice Bragança)

terça-feira, 5 de agosto de 2008

GRUPO QUIXOTE: PAULO ARMANDO

ANTINOMIA DO SER

Há sempre o cacho que desabrocha
Repentina flor.
A mão no coldre se detém
No laço do sorriso.

A rocha purifica a água.
E nasce a fonte
O veio flébil que balança a folha
O rio que embala o barco
E vira luz
O mar que leva longe
E conta à praia
O longe que ficou.

A nuvem traz a chuva
A chuva traz a flor
O vento leva e paralém renasce
A nova flor
O esperma adentra no canal, mucoso
E vem o ser
Sorriso e dor.

(Paulo Armando)

GRUPO QUIXOTE: PAULO ARMANDO

OCASO (1)

A esta altura não sei mais nada
Nem mesmo quem seja eu.
Gritei meu nome a noite inteira na janela
E ninguém
Ninguém me respondeu.

(Paulo Armando)

domingo, 10 de fevereiro de 2008

PAISAGEM PARA VAN GOGH

PAISAGEM PARA VAN GOGH

Corre uma menina atrás de um gato.
Chora a adolescente a noite que já se foi.
Entre o vento nos cabelos
e a beleza de trigais de puro sol
passam parreirais nas janelas
de trens já sem trilhos.
Só o olho furta-cor do futuro
poderá talvez encontrar o gato.


(Maria Alice Bragança)

sábado, 15 de setembro de 2007

ARTISTAS ESSENCIAIS, JORGE MACCHI








Ainda Jorge Macchi... Diferente dos discursos rápidos, o que sempre encanta em um projeto artístico são os seus silêncios. Como lacunas, os silêncios nos interrogam. A contemplação pode nos devolver a possibilidade de investigar nossas indagações mais profundas sobre a condição humana, sobre nós mesmos...
E este tempo em que estamos vivendo.