segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Arte e moda, ótima combinação = boa leitura

Arte e moda encontram-se e se influenciam o tempo todo. Lançado no final do ano passado, Roupa de artista: O vestuário na obra de arte é uma leitura interessante para quem gosta de moda e de arte. A autora é a crítica, curadora e historiadora da arte Cacilda Teixeira da Costa, que, a partir de uma pesquisa que durou três anos, analisa como as roupas aparecem em pinturas e esculturas. Ela discorre sobre um infinidade de obras de artistas do Renascimento até os dias atuais: pinturas, esculturas, desenhos, gravuras, figurinos, instalações e happenings. A autora comenta que a importância do vestuário é cada vez maior. "Jovens artistas continuam apropriando-se do vestuário como metáfora ou forma de expressão - fora da moda. Do ângulo da relação com a moda, os estilistas propõem coleções inspiradas em obras de artistas e os desfiles são cada vez mais performáticos". A apresentação do livro é assinada pelo crítico de arte Walter Zanini, que destaca a contribuição da autora ao relacionar estudos sobre artistas e sobre vestuário.











Maja vestida (1800-1805). Francisco de Goya (1746-1828) usou tecidos leves para valorizar o corpo feminino e, assim, mostrou como a roupa poderia também aguçar o erotismo.

A autora lança mão de aspectos da história social e da arte, da história da moda, da estética e da semiótica em suas análises.
Há muitos exemplos ilustrando as análises da autora. Lembra-se, por exemplo, Velázquez, um mestre na descrição pictórica dos trajes da corte. E, no século XIX, o realismo descritivo chegou, talvez na obra de Ingres, ao seu mais alto grau, quando, de forma inédita é dada a mesma importância ao rosto, às mãos e ao vestuário.




















Madame Moitessier (1856). O vestido de seda estampada recebe do pintor francês Jean Dominique Ingres (1780-1867) o mesmo cuidado dedicado ao rosto da retratada.

Um rompimento ocorre logo após, quando Degas deixa de lado a representação e utiliza o próprio vestuário como parte integrante da obra de arte.




















Pequena bailarina, Degas

Por volta de 1770, surgiram as primeiras publicações sobre moda, como La Galerie des Modes, publicada entre 1778 e 1787. No início, reproduziam as roupas usadas pelos mais elegantes da época e, em seguida, passaram a apresentar modelos e informações sobre tendências em voga.
Uma das obras citadas no livro é a tela Negras livres vivendo de suas atividades, de Jean-Baptiste Debret, que traz a visão do artista sobre as roupas utilizadas pelos escravos alforriados no Brasil de 1835.
























A Infanta Margarita (1659), Diego Velázquez (1599-1660). Para o casamento da princesa, o artista vestiu a corte espanhola de preto e prata, estendendo às roupas o jogo de claro-escuro explorado em suas obras. Em junho de 1660, coube ao pintor, contratado da corte de Felipe IV, a organização do casamento da princesa Maria Teresa com o rei da França, Luís XIV. Na época, a Espanha havia entrado em um período de declínio e não podia deixar a situação transparecer, sob o risco de ver cancelada a conveniente aliança. Velázquez sabia que os franceses compareceriam à cerimônia ostentando luxo, principalmente tons de vermelho, a então cor da realeza. O artista tratou de vestir os nobres espanhóis de preto e investiu em tons prateados para as rendas e joias. Deu certo, Luís XIV e seus pares não só se impressionaram com o efeito poderoso das roupas dos vizinhos como ficaram completamente ofuscados por sua ousadia. Velázquez morreu dois meses depois do casamento, e há quem diga que foi de exaustão.























Emilie Flöge, feito pelo austríaco Gustav Klimt (1862-1918) em 1902. O artista criava com a estilista Emilie Flöge muitas das túnicas com motivos geométricos e brilhantes que depois seriam usadas por suas modelos.